segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Da morte da Rainha das Fadas e da ascensão do novo Senhor da Terra das Fadas

Um jovem entrou com muita pressa na sala real. A Rainha das Fadas estava sentada em seu trono. O coração da Terra das Fadas estava ali sob a forma de uma esplendida e bela mulher majestosa. Ela era a fonte de vida do reino, tudo se originava dela e para ela retornava, era a um só tempo a criadora, mantenedora e destruidora.

O jovem postou-se em frente da rainha e fez-lhe sua reverência. Parecia estar muito perturbado. Suas mãos tremiam e seu rosto estava pálido. Mas mesmo assim, dava para perceber, olhando-o com um pouco mais de atenção, que ele porta em sua essência um temperamento ao mesmo tempo zombeteiro e nobre. De espírito leve e livre de ambições, seus prazeres são aventurar-se pelas infindáveis regiões da Terra das Fadas.

Ele sempre se comportava de um jeito brincalhão e raras foram as situações que o deixaram sério e atormentado. Parece que uma grande aflição tomou conta dele, e por dentro, agora, estava inseguro e com muito medo.

Pálida saiu sua voz ao falar com a Rainha:

-Saudações minha nobre senhora! Gostaria de pedir sua permissão para falar-lhe.

Com sua voz, sempre serena e cristalina, ela disse:

-Meu nobre Gilfred! A que devo a honra de sua visita?

Depois de uma pequena pausa e de respirar fundo, a voz dele parecia tremer menos, e por fim respondeu:

-Oh! Poderosa Senhora! Tive um pressentimento hoje. Estou com a sensação de que algo muito estranho e forte está por vir, mas, o que sinto é algo assombroso, e parece-me que tudo vai mudar.

Repentinamente um grande tremor teve início e, em seguida, vieram intensas explosões e trovoadas. Como Gilfred sentira, algo estranho ocorreu. Ele foi correndo para a janela ver o que estava acontecendo lá fora e ficou como que paralisado.

Numa fração de segundos tudo mudou. O horizonte estava negro e do céu caia poderosos raios que dilaceravam a terra. Uma enorme fenda se abrira no solo, não muito longe do castelo da Rainha e começava a sugar tudo o que aparecia pela frente.

A Rainha levantou do trono e disse num tom tranqüilo e seguro:

-Nobre Gilfred! É chegado o grande momento.

Transtornado e ainda se recuperando do susto Gilfred disse:

-Como assim, Nobre Rainha, o que está acontecendo afinal?

Com sua voz majestosa ela disse:

-Minha hora chegou Gilfred. O meu tempo aqui está acabando.

E em seguida ela acrescentou:

-Isso que você pressentiu eu já havia sentido durante um longo tempo. Por isso que tudo está sendo destruído, pois uma nova era esta começando e minha última missão é evitar que a Terra das Fadas seja completamente destruída.

Essas palavras soaram como um golpe mortal de espada para Gilfred, que cambaleando e com a voz profundamente trêmula disse:

-Mas como isso? Você é a Rainha, a fonte de tudo o que existe aqui. A sua vontade é lei...Não! Não pode ser possível. Seu poder é imenso e pode acabar com esse cataclismo numa fração de segundos.

Ela olhou profundamente nos olhos de Gilfred e depois de alguns segundos disse:

-Sim! Claro que posso acabar com isso tudo bem rápido, só que para isso, preciso dar minha vida em troca. Não há como barganhar contra o tempo. Não sou imortal, mesmo regendo esta terra. Poderia ter a vida eterna se eu quisesse, mas seria desastroso demais para mim. Nossa terra agora está pedindo por mudanças e devo fazer um último esforço para evitar o pior. Tenho que deixar alguma coisa para meu sucessor.

A Rainha das Fadas depois de pronunciar estas palavras vestiu sua armadura e seu elmo, que são talhados de esmeralda e que refletem um belo brilho, além de emitir um suave som sibilino quando ela se movimenta.

Em seguida pegou sua espada que, no momento, emitia um sinistro brilho negro, sinal que sua vida estava próxima do fim, e seu resistente escudo feito de diamantes e que traz no emblema a figura de um leão.

Gilfred novamente tomou a palavra e surpreso disse:

-Mas este mundo não vai agüentar sem você, e, não há sinal de um novo rei ou rainha que te sucederá.

A Rainha das Fadas transmitiu suas últimas palavras na Terra das Fadas:

-Há um sucessor sim. Quando minha vida se esgotar este mundo o conhecerá. E agora, adeus meu nobre amigo.

Em seguida, ela deu um forte assovio e um poderoso leão apareceu.

A última visão que Gilfred teve da poderosa senhora foi vê-la montar no poderoso animal que começou a correr velozmente em direção ao imenso abismo aberto.

O nobre cavaleiro não se conteve e pôs-se a correr freneticamente na direção da imensa fenda, mas quando chegou já era tarde. A mais bela e poderosa dama da Terra das Fadas já havia sido tragada.

Instantaneamente os tremores e as trovoadas cessaram. Do imenso abismo Gilfred viu a imagem do rosto da Rainha das Fadas, que transmitia um sorriso sereno e feliz, se juntar aos últimos brilhos de sol do crepúsculo e instantaneamente dissipar-se no ar.

Na havia mais o que fazer. A Rainha das Fadas estava morta. Tudo estava acabado.

Gilfred já não tinha mais lágrimas para chorar a perda dela. A única coisa que restava dentro dele era uma imensa sensação de vazio.

Ele ficou ali, imóvel, observando o local da tragédia. Seus olhos, que momentos atrás expressavam medo, agora observavam fixamente, ora aquele grande buraco no chão, e ora contemplavam os primeiros sinais da noite, para onde a rainha havia partido.

Nesse momento ele finalmente compreendeu as últimas palavras dela. Não havia como lutar contra a vontade da Terra das Fadas. Ele sentiu em seu íntimo todo o dinamismo desse mundo que agora proclamava outro ser para compartilhar das graças da criação.

Era preciso outro regente e Gilfred sabia disso, e em seu íntimo ele já sabia quem era o novo representante desse mundo.

Ele observou o horizonte e viu a imensa paisagem que se desdobrava euforicamente a sua frente, e como aquilo tudo era imenso. Conseguia, agora, sentir com toda a intensidade o calor do país do verão e o frio mortal das longínquas montanhas gélidas do norte, um dos lugares mais perigosos do país do inverno.

Agora Gilfred conseguia sentir a vida da Terra das Fadas, e, sentia-a com uma intensidade indescritível. Seria como se ele se transformasse no próprio mundo, mas ainda fosse Gilfred.



Milhares de seres contemplavam essa bela imagem da Rainha, mas estavam confusos e atordoados. Não sabiam o que iria acontecer dali pra frente. Só tinham uma certeza, a de que a grande senhora não estava mais lá, e, uma grande confusão teve início. Alguns se proclamaram senhores daquele reino e começaram a duelar entre si pelo poder. Teve início uma grande confusão.

Para todos os lados ouvia-se o som de espadas tinindo e gritos de guerra, até que uma pessoa apareceu no meio deles, e por um instante todos pararam de lutar e observaram a figura que se aproximava.

Era jovem, alto, de longos cabelos dourados e orelhas pontudas surgiu próximo à multidão. Ele trajava um casaco preto, uma camisa vermelha, calças e botas pretas, além de uma cartola também preta. Na sua mão direita trazia um cetro, cujas pedras preciosas incrustadas nele refletiam um belo brilho multicolorido.

-Saudações meus amigos! Disse ele. Chamo-me Gilfred e sou o sucessor da Rainha das Fadas. Ela me deixou todo este belo reino e a missão de comandá-lo. Tudo, agora, é extensão de mim. Eu crio, harmonizo e destruo. A minha vida é a terra das Fadas e a Terra das Fadas é a minha vida e um não sobrevive sem o outro.

Um ser aproximou-se de Gilfred. Era um elfo de cabelos negros e empunhava uma espada em sua mão. Chamava-se Viker e era um dos seres mais poderosos do reino, que no passado fora um grande inimigo de Gilfred. Ele era um ser arrogante e impetuoso e há algum tempo atrás planejava um meio de destronar a rainha e ser o senhor de todo o reino encantado. Aquela era a sua chance, ele seria o novo rei, ninguém era mais poderoso do que ele e todos o temiam. Com muito despreso, e desdenhando o que Gilfred disse, ele se pronunciou:

-Não me faça rir! Como você pode ser o novo senhor desta terra. Olha para você, parece mais um aventureiro do que um rei.

Tranqüilamente Gilfred falou:

-Não posso negar, meu amigo, que eu não seja um apreciador de aventuras. Já participei de muitas, e, se você quiser, numa próxima ocasião pode me fazer uma visita. Tomamos um delicioso chá e poderei contar como foram as jornadas das quais participei. E, devo mesmo concordar contigo, não tenho mesmo cara de rei, e, como pode perceber também não uso coroa. Prefiro esta cartola que é muito mais confortável, e manto é algo muito comprido e não seria muito bom para mim, poderia tropeçar nele. É, concordo, não sou rei.

O elfo ficou furioso com as palavras de Gilfred e tentou atacá-lo.

-Não acredito nisso! Disse o elfo furioso.

-Não acredita em que meu amigo? Disse Gilfred.

-Eu te ataquei, mas a minha mão recusou-se a golpeá-lo.-Disse o elfo ainda não acreditando no que via e sentia.

-Hum! Meio estranho isso.-Disse Gilfred. Tente com isso!

Ele jogou seu cetro para o elfo.

-O que é isso? Disse o elfo.

-Este é meu cetro. –Falou o novo soberano. Pode usa-lo à vontade contra mim.

-Como?-Disse o elfo. Você me passou sua arma mágica para eu usá-la contra ti. Pois é isso mesmo o que farei. Um tolo nunca deve se proclamar soberano.

Com toda sua fúria e energia o elfo avançou contra Gilfred, mas novamente seu braço recusou-se a golpeá-lo.

-Não pode ser!-Gritou o elfo. De novo não. O meu braço não quer me obedecer.

-É muito estranho isso!-Disse Gilfred. Quando eu faço alguma coisa com o meu braço ele não se recusa a fazer o que eu desejo. Porque você não tenta de novo?

-Eu não posso!-Disse o elfo um tanto desapontado.

-E porque não?-Perguntou o soberano.

-Porque sou tolo!-Exclamou o elfo. Eu pensava que seu poder estava no cetro, mas percebo que não é assim. Eu não consigo te atacar porque percebi que não posso desferir um golpe mortal contra eu mesmo. Não há o que dizer ao contrário, você é o soberano, é a própria Terra das Fadas. Lutar contra você seria o mesmo que lutar contra a Terra das Fadas inteira.

-Nossa! Você foi profundo agora.-Disse Gilfred. Eu nunca tinha pensado nisso, mas gostei da idéia. Agora tenho que ir.

O elfo fez uma reverência ao novo soberano e entregou-lhe o cetro.

Gilfred agradeceu o gesto do elfo, recebeu novamente seu cetro e pôs-se a caminhar em direção às ruínas do castelo da Rainha das Fadas. Lá estava um velho anão. O soberano aproximou-se dele e disse:

-Meu amigo Gliak! Satisfação em vê-lo.

-Nossa Gilfred! Disse Gliak surpreso. Eu não imaginava que você seria o novo senhor deste reino.

-Eu também não! Disse Gilfred. Temos algumas coisinhas para fazer meu amigo. Preciso restaurar muita coisa.

-E precisa construir seu castelo também!-Disse Gliak.

-Isso eu não quero! Disse Gilfred. Castelos são para grandes reis. Temos muitos castelos e reis por aqui. Nestas ruínas quero construir algo diferente, algo parecido com o que vislumbrei com o mundo de lá no momento do grande cataclismo.

-Lembro-me vagamente daquele lugar.-Disse Gliak.

-Eu também! Afirmou Gilfred. Por isso faremos uma viagem, aí eu terei muitas idéias para fazer o que quero.



Alguns dias depois Gilfred e Gliak realmente fizeram a grande viagem para o mundo exterior e ficaram maravilhados com algumas casas que viram lá. Uma delas chamou muito a atenção dos dois. Era uma casa abandonada, mas antiga. Eles colocaram um pouco da energia da Terra das Fadas ali e criaram uma casa dupla.

Como assim dupla, devem estar me perguntando? É isso mesmo. Uma casa com dois lados. É uma espécie de portal que liga o mundo externo à Terra das Fadas, e por dentro é uma pequena parcela de lá e por fora aparentemente é uma casa abandonada, mas quando alguém do mundo de fora quer vê-la em seu novo esplendor, ela se apresenta como Gilfred a reconstruiu e se quiser sempre está convidado a entrar e tomar um delicioso chá com seu anfitrião, e também, é claro, se quiser, conhecer alguns reinos da Terra das Fadas.








quarta-feira, 23 de junho de 2010

Num quarto de hotel



Naquela noite fazia muito frio. Como eu estava longe de minha casa e já passava da meia-noite resolvi me hospedar num hotel.


Como eu não tinha muito dinheiro acabei me hospedando num de quinta categoria mesmo, cuja fachada prenunciava o ar decadente de seu interior.


Por dentro era como eu havia pensado. A recepção era suja e com alguns pisos quebrados. A pintura das paredes e do teto estava descascando, e em alguns cantos dava para ver manchas de bolor e teias de aranha. No centro havia um velho balcão de madeira já dominado pelos cupins e num dos cantos tinham duas poltronas velhas que cheiravam a mofo.


Contrastando com aquela paisagem decadente havia um rapaz bem trajado, com roupas extremamente limpas, atrás do balcão.


-Boa noite! Em que posso ajudá-lo?


-Boa noite! Quero um quarto individual.


-Custa R$ 15,00 a diária.


-Aqui está!


-Ótimo! Quarto número nove. É só virar a esquerda e ir até o fim do corredor. Aqui está a chave.


No corredor a cena era a mesma, com paredes emboloradas, uma teia de aranha aqui e ali e tinta descascando. O quarto em que eu ira passar a noite também não era diferente. Tinha o mesmo ar de decadência e esquecimento do resto do hotel. Ele era bem simples. Havia uma velha cama de madeira, uma mesinha com um abajur, um pequeno rádio relógio, um armário de madeira, também dominado por cupins, e, na janela tinha uma cortina toda esfarrapada.


Apesar da sensação de extremo abandono que aquele lugar me passava, como eu estava cansado me deitei na cama e logo dormi.


No meio da madrugada acordei com uns barulhos que vinham da rua. Levantei da cama, fui até o armário, abri a minha bolsa, peguei uma garrafa de água e bebi. Quando fui deitar novamente, ouvi alguém bater na porta do meu quarto. Fui abri-la, mas, não tinha ninguém e grande foi o meu espanto quando, depois de fechar a porta, vi que tinha uma mulher sentada na cama. Como ela entrou no quarto? Sinceramente não sei, a janela estava fechada e pela porta ela não entrou. Isto é algo que foge da minha compreensão, mas no mundo muita coisa não pode ser explicada e este fato é uma delas.


Toda trajada de preto, ela parecia trazer consigo toda a escuridão da noite, e, olhar para os seus olhos era a mesma coisa que entrar nas profundezas do mar. Era muito bonita, elegante, sua pele tinha o tom do brilho da lua, e seu corpo exalava um intenso perfume misterioso.


Eu nunca tinha visto uma mulher tão atraente e enigmática. Tudo nela era assombro e delicadeza. Ela era a primordial, a Mulher das mulheres, o feminino em toda a sua intensidade. Fiquei atônito. Não conseguia me mexer. Eu estava paralisado.


-Venha!


Foi só isso o que ela disse, mas aquela palavra carregava todo um poder de encantamento. Atendi seu chamado e caminhei até ela.


Ela carregava todo um mundo obscuro consigo. Ao beijá-la senti-me imenso. Agora não éramos homem e mulher, partilhávamos do infinito, íamos além de nossa união corporal.


Naquele momento éramos somente vida e nada mais. Aquela sensação foi muito estranha para mim. Era como se ela fosse um abismo e eu me jogasse lá dentro, mas sem ser tragado e perder minha consciência. Pelo contrário, minha consciência juntou-se a dela, éramos ao mesmo tempo um e dois. Nossos corpos se interpenetravam e formávamos o infinito...


Novamente adormeci e quando acordei já era dia. Estava uma manhã ensolarada e ao olhar para o lado tal foi meu espanto ao ver que a mulher não estava mais lá. Não havia nenhum indício físico de sua presença, pois a porta estava trancada e a chave estava por dentro do quarto. Mas isto não importa, pois nem tudo precisa ter uma existência física para ser real.


Então saí do quarto, fechei a porta, entreguei a chave ao atendente e fui andando pela rua à procura de um café...











sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O duelo

Eu estava dormindo quando ouvi um forte estrondo. Abri a janela de meu quarto e deparei-me com uma noite chuvosa e fria. No mesmo instante senti um calafrio intenso, quando dei por mim, ele estava na minha frente. Era um imenso dragão negro e olhava-me no fundo de meus olhos.

Impotente, ante aquele olhar penetrante que parecia me sugar por inteiro, eu não podia fazer nada, e fiquei ali, petrificado, completamente imóvel. Meu corpo não obedecia, queria fugir dali, ir para bem longe e me esconder num local seguro.

Por muito tempo, não sei dizer quanto ao certo, aquele ser monstruoso ficou somente me observando, sem mais nada fazer, e eu, ali, impotente, como que hipnotizado e sem mexer um dedo.

Então, quando eu menos esperava, ele falou, e sua voz era grave, quase gutural.

-Nos encontramos novamente. Fico feliz em vê-lo!

Sua voz era penetrante, e cada palavra parecia fazer com que eu fosse jogado numa jaula fria. O frio que emanava daquele olhar era intenso, mas era um frio que congelava por dentro.

-Você está mudo. Não diz nenhuma palavra e nem se mexe. Cadê aquele poderoso elfo de outrora que quase me destruiu?

Eu estava todo encolhido dentro de mim, e minha essência estava fraca. Não podia sentir aquele poder que sinto internamente, e isto me entristecia mais ainda. Aonde foi parar todo aquele ânimo de antigamente e também à vontade de lutar?

-Posso ver tudo o que se passa dentro de ti, estás reduzido às sombras do que era. É uma pena, vim aqui acreditando que iria encontrar aquele meu inimigo mortal, mas não vejo mais que um verme agora.

Como cada palavra daquela doía, e eu, ficava lá, com a cabeça baixa escutando passivamente todo o escárnio daquele ser.

-Sabe de uma coisa? Vou-me embora. Vim à procura de um guerreiro e não de uma pessoa que se deixa abater por futilidades, chorando por amores passados e por amigos que se foram. Vou deixá-lo aí, aos prantos em meio a sua dor. Adeus.

Seus olhos foram lentamente se afastando, e pude vislumbrar com imenso pavor o tamanho daquela criatura. Ele era imenso, nunca ia conseguir destruir um ser daqueles. Então, caí, e fiquei lá no chão do meu quarto, quase que a noite toda aos prantos, antes de adormecer.

Só depois de muito tempo consegui me levantar e fui pra minha cama dormir. Não sei quanto tempo demorei a acordar, mas foram longos e intensos os pesadelos que tive, e em todos eles o dragão estava a humilhar-me e eu ficava encolhido chorando feito uma criança.

Estava anoitecendo quando levantei. Meu corpo estava todo dolorido e a janela continuava aberta. Eu ainda fiquei algumas horas olhando o lugar aonde aquela imensa serpente havia ficado na noite anterior, pensando em todas as palavras que aquele dragão me disse. Quando me dei conta, Ainor, meu cavalo alado, esta na minha frente.

-Eirion, meu amigo, o que aconteceu contigo? Que estado é este em que te encontro?

-Ó nobre Ainor! Fui vencido por aquele poderoso dragão negro. As palavras dele são como a lâmina de uma espada e cortam profundamente.

-Não estou vendo sua força, e cadê sua vestimenta élfica, seu majestoso porte?

-Faz tempo que sou somente humano meu amigo. Estou estagnado e aquela serpente gigante me venceu porque eu já não tinha mais forças há muito tempo. Na verdade, ele não me derrotou, a solidão acabou comigo.

-Você tem que ser forte e se reerguer meu amigo. Somente você pode derrotá-lo agora, mais ninguém pode fazer isto.

-Não posso mais. Vivo meus dias à espera da morte somente, não tenho forças para mais nada, e, além do mais, não possuo aquela poderosa espada com a qual o derrotei anteriormente.

-Mas, lembre-se que foi você quem a construiu, e pode muito bem fazer outra, até melhor que aquela.

-Impossível, minha forja deve estar estagnada também. Faz muito tempo que não vou àquele lugar.

-Acho que não me resta outra coisa a fazer, a não ser voltar para meu lugar de origem. Adeus Eirion, que pena eu não poder lutar mais ao seu lado.

-Adeus Ainor! Ficarei aqui neste quarto esperando minha hora.



Logo depois fui ao banheiro lavar o rosto, e tal foi o meu espanto ao vê-lo refletido no espelho. E, de fato, eu estava com a face muito abatida, mas ainda existia um brilho e pude contemplar novamente minha aparência élfica, e, correndo fui ao meu quarto, escolhi um cd e o pus a tocar. Pude sentir novamente aquela atmosfera mágica e envolvente das músicas que outrora me renovaram o espírito. Comecei a dançar e a cantar intensamente. A angústia tinha desaparecido de mim e pude sentir novamente todo o esplendor do passado.

-Agora sim, volto a ser Eirion, e merecedor deste nome. Todas as glórias para mim, o grande Eirion, outrora grande forjador e guerreiro élfico. Está na hora de resgatar tudo o que é meu.

Naquele momento eu usava novamente minhas vestes majestosas, e ao abrir meu armário, lá estava minha velha armadura prateada. Ao colocá-la, o calor das batalhas me incendiou o espírito. Eu não tinha mais a espada, mas sabia que poderia forjar outra.

Passei muito tempo em minha forja trabalhando na construção de uma nova espada. Foi uma tarefa árdua, e certo dia, quando a estava finalizando, num momento de grande euforia e inspiração percebi que um fogo intenso ardia no meu coração.

Meu peito começou a brilhar, e este brilho foi intensificando-se, começou a se afastar um pouco de mim, e pude perceber que dentro dele algo começava a tomar forma. Em poucos instantes eu tinha em minhas mãos um belo rubi. Engastei-o no punho da espada. Estava pronta a nova arma.

Era, de fato, melhor que a anterior. Sua lâmina cortava qualquer tipo de ferro e aço e tinha um brilho avermelhado.

Findada minha obra voltei à minha casa, e lá chegando, deparei-me novamente com Ainor.

-Saudações Eirion! Vejo que está curado.

-Ó Ainor! Fico feliz em revê-lo. Estou forte novamente, meu espírito brilha intensamente em mim.

-Onde você estava? Ficou muito tempo fora.

-Estava em minha forja. Passei muito tempo lá, trabalhando na construção de uma nova espada. Como não tenho a antiga, tive que fazer outra.

-Que brilho intenso tem sua nova espada.

-Engastei nela um rubi com o brilho de meu coração, por isso ela brilha, e esta jóia é quem lhe dá seu imenso poder, e ela me trará a vitória.

-Posso sentir, e desta vez você se superou.

-É verdade meu amigo. Tenho uma arma poderosa para enfrentar meu inimigo, e desta vez vencerei a batalha, este é meu destino.

-Fico feliz que tenha recobrado suas forças.

-Eu também. Havia me esquecido de todo o poder que emanava dentro de mim.



Dei um forte abraço em Ainor. Era gratificante ter meu grande amigo de volta, senti que minha chama nunca se apagou por interia.

-Vamos Ainor! É chegada a hora de adentrarmos o covil daquele ser e derrotá-lo!



Era noite, e voávamos velozes pelo céu. De lá de cima contemplávamos as luzes da cidade e o silencio das florestas. Viajamos durante horas até chegar ao covil do monstro, que ficava numa caverna rodeada por uma cadeia de montanhas.

-Este é meu momento Ainor. Vou entrar na caverna, aguarde-me aqui, irei ao encontro de meu destino.

-Esperarei. Desejo-te sucesso meu amigo.



Adentrei aquele obscuro reino, aonde imperava a escuridão. Fui guiado pela lâmina de minha espada, que tinha o brilho mais forte que o de uma lanterna. Caminhei até o centro da caverna, que era enorme, e lá estava ele, deitado em cima de seu imenso tesouro.

-Vamos! Acorde. Estou aqui para lutar com você novamente.

Lentamente o dragão abriu os olhos e pôs-se a me observar. Olhou-me então no fundo dos olhos e pude ver novamente seu olhar abissal, mas, desta vez eu era outra pessoa, não estava mais transtornado como antes, e com todo meu ânimo pus-me a contemplá-lo também e desta vez conseguia sustentar seu olhar sem me perturbar.

-Hum! Vejo que recuperou as forças. Agora sim é um adversário digno.

-Não o temo mais e vim aqui para vingar-me da humilhação pela qual me fez passar. Naquela noite eu não tinha forças e tive medo de você, mas hoje a história é outra, e esta minha nova lâmina colocará fim a sua vida.

-Então venha! Vamos ao combate.



Dei um grito de guerra e fui correndo em sua direção com minha espada nas mãos. Eu estava eufórico e minha vontade de lutar era intensa. Sem muitas dificuldades a enorme serpente desviou de meu primeiro golpe, e ao revidar com sua enorme garra afiada, eu com minha renovada agilidade pude facilmente escapar.

-Estou vendo que está em forma mesmo Eirion.

-Agora tenho uma força e resistência maior do que antes.



Reiniciamos a batalha. Muitos golpes foram desferidos, e num momento de desatenção de minha parte, sua garra feriu minha perna, e por pouco não fui atingido pelo fogo que ele disparou contra mim na seqüência.

Mesmo ferido pude retomar a luta e consegui decepar-lhe uma das garras. A besta deu um grito de dor apavorante e cuspiu fogo novamente contra mim, e ao esquivar-me, vi que sua guarda estava abaixada e cortei-lhe então uma das asas. Sua dor era intensa e seus gritos estavam mais fortes agora.

-Vejo que esta lâmina é poderosa mesmo, cortou uma de minhas asas e de minhas garras com facilidade. O que há nesta espada que a deixa tão forte assim?

-Engastei um rubi que contém o brilho de meu coração. É ele quem lhe dá toda a força.

Ele tentou me atacar de novo com a outra garra, mas fui mais rápido e consegui desferir-lhe um golpe certeiro no coração. Com estrondo ele tombou, e lá estava morto o dragão que durante remotas eras trouxe dor e medo a muitos.



Pus-me a caminhar de volta, quando ouvi uma voz gutural e ao mesmo tempo cristalina.

-Congratulações a ti nobre guerreiro. Você pôs fim àquele terrível monstro e libertou-me de minha prisão.



Quando olhei, pude vislumbrar um grande dragão branco de olhar sereno. Desde o momento que eu entrara naquele lugar não tinha percebido sua presença.

-Onde você estava? Não o vi em momento algum da batalha.

-Eu estava mais atrás, preso por encantamento numa destas bifurcações. Pude ver a batalha inteira de vocês, mas de onde você estava realmente era difícil me ver, e quando você o matou o feitiço se desfez.

-E quem é você?

-Chamam-me Tenjaflar, o dragão branco. E vim parar aqui depois de ter me confrontado com seu inimigo. Ele destruiu minha família, procurei minha vingança, mas fui vencido e aprisionado por meio de seus encantamentos.

-Você agora está livre Tenjaflar. Sua família foi vingada, assim como muitos outros que pereceram nas garras dele.

-Agradeço-lhe profundamente. Você tem agora minha gratidão e amizade. Precisando é só chamar que aparecerei. E como você derrotou nosso inimigo, por direito todo este tesouro lhe pertence.

-É verdade, este tesouro me pertence. Por hora só fecharei esta caverna com um encantamento, depois voltarei aqui para resgatá-lo, e com ele poderei reconstruir muita coisa.



Aquele imenso ser fez-me um comprimento com a cabeça, bateu asas e pôs-se a voar e foi-se pelo céu em direção às florestas profundas.

Quando voltei onde estava Ainor, ele estava aflito e me olhava com espanto.

-Eirion! Quem era aquele dragão branco que saiu voando por aqui?

-Era uma das vítimas de nosso inimigo, foi aprisionado por ele.

-Que bom que está vivo, fico feliz em vê-lo. E este ferimento em sua perna?

-A garra dele me acertou, não consegui esquivar. Vamos embora preciso cuidar deste ferimento, outrora voltaremos aqui para resgatar o tesouro que aquele mostro escondia.



Desta forma montei mais uma vez em Ainor e voamos em direção à minha casa. Ao chegar, nos despedimos, fiz um curativo na ferida que ardia e fui dormir. Fazia muito tempo que eu não dormia tranqüilamente e tinha bons sonhos.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A Cerimônia

Inúmeras velas negras iluminavam o grande templo consagrado ao Homem-Deus.

Em meio a uma multidão de seres encapuzados encontrava-se uma bela virgem nua. Assustada ela clamava por misericórdia e piedade. Nisso, uma das figuras ali presente, que se diferenciava dos outros por portar um grande rubi no pescoço, aproximou-se da jovem e disse as seguintes palavras:

-Ó irmãos! Se aproximem desta figura ridícula que vive se vangloriando de sua pureza e castidade, e façam sua grande obra diabólica.

Os homens tiraram seus mantos, e nus, começaram a dançar freneticamente ao redor da vítima.

O Grão-Mestre levantou os braços e sorrindo disse:

-Irmãs! Venham participar do êxtase divino!

Outras figuras encapuzadas então apareceram, jogaram seus trajes ao chão e revelaram esplêndidos corpos femininos nus e em seguida entraram na dança com os homens em êxtase orgíaco.

Nesse meio tempo, aparecera outra figura encapuzada carregando um cálice em suas mãos, e ao se aproximar da incrível dança o Sumo Sacerdote disse:

-Irmãos! Despejem o néctar sagrado nesta taça. Irmãs continuem dançando ao redor da virgem e usufruam o prazer propiciado pelo ente supremo.



Feito o trabalho, o Grão-Mestre apoderou-se do cálice e aproximando-se da inocente figura aflita disse:

-Vamos! Ó filha da perdição, beba este precioso líquido e nos revele seus desejos obscuros.

-Não! Por favor, não faça isso, tenha piedade de mim. Diz soluçando a aflita donzela.

O Sumo Sacerdote dá uma intensa gargalhada e olha fundo nos olhos da mulher.

-Vamos! Beba. Não acredito em suas palavras. Não seja uma leviana dissimulada e aprecie a comunhão com o sagrado.

Não há como fugir dos olhos que a tudo revelam. Um desejo apoderou-se da mulher que num frêmito de êxtase pegou o cálice e pôs-se a beber avidamente o que estava dentro dele.



O círculo novamente foi montado, e no centro dele, estavam o Grão-Mestre e a virgem.

-Agora! Disse o poderoso mestre, celebremos a comunhão divina.

Os dois então se abraçaram e teve início a cerimônia.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

The Chosen Legacy

O Sacerdote com suas vestes negras e capuz a lhe ocultar o rosto fazia suas preces.

Com sua mão esquerda empunhava um fino punhal de prata, todo talhado com pedras preciosas. Na sua mão direita havia uma imagem do Cristo Podre em sua ridícula agonia.

No altar havia uma bela mulher nua com a boca amordaçada e seus pés e mãos, atados. A pobre fêmea estava petrificada de tanto pavor. Aquela inocente alma cristã temia por sua vida.

Ao redor do altar, da mulher nua e do Sacerdote estavam os adeptos, também vestidos de negro. Eles formavam um circulo ao redor de seu mestre e da moça. Em suas almas traziam imenso desejo de luxúria e esperavam somente a ordem daquela enigmática figura sacerdotal para abaterem aquela vítima.



-Ó irmãos e irmãs aqui presentes! Dizia o Sacerdote. Estamos aqui, neste imundo Templo deste Cristo Putrefado, para proclamarmos nossa liberdade.

-Que assim seja! Diziam todos os adeptos.

-Acabaram-se aqueles dias de escuridão! Dizia o Sacerdote. Agora somos livres. Estamos livres de todos os deuses e entidades diabólicas. Hoje será, queridos irmãos, o dia do Homem-Deus. Estamos acima do bem e do mal. Viva o Homem-Deus!

-Viva! Gritam com entusiasmo os adeptos.

-Ó irmãos e irmãs! Dizia o Sacerdote. Estão vendo aqui esta bela mulher? Mostremos-lhe a vontade humana, o poder do Homem-Deus, e vejamos se o Deus Pai Todo Poderoso dela há de acudi-la.



Aproximando-se mais do corpo da bela jovem, o sacerdote tocou-lhe, demorada e prazerosamente, os seios e a vagina.

-Irmãos e irmãs! Disse o Sacerdote com ímpeto. Esta alma cristã está pronta. Venham, em nome da Liberdade, e da Volúpia saciar vosso desejo de luxúria. Mostremos ao Deus desta nossa bela presa que aqui ele não tem nenhum poder.



Assim dito, aos poucos aqueles homens e mulheres, de cujos olhos emanavam um intenso desejo de luxúria, foram se apoderando daquele corpo inocente e virginal. Estava então proclamada a supremacia do Homem-Deus.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O Ser

Eu sou.
Não sou.
Nada sou.
Porém, sou
O que sou.
O ser,
Que tudo compreende ser.
E deveras será
Toda a extensão do ser,
O verdadeiro ser,
Que sou,
Que fui,
E serei.

A totalidade do ser

Todo aquele poder
Que emana de meu ser,
Duas faces pode possuir,
E diversas sensações transmitir.

Visto que Deus e Diabo sou,
Livre arbítrio dou
Às minhas intenções,
Purificando e corrompendo em minhas ações.

Anima Oceano

Quando penetro profundamente em minha “anima”,
Sinto como se mergulhasse num oceano.
Não consigo ver seu fim,
Mas posso senti-la por inteiro.
Porque na realidade,
Minha alma é o oceano.
E, a partir do momento que nela penetrei profundamente,
Descobri meu verdadeiro Eu.

O meu Eu, em realidade é o mundo.
Eu sou o mundo, o homem que veio
Em realidade penetrar o impalpável,
Buscar a Essência Primordial,
Aquela que permeia todo o mundo,
Que é o meu próprio Eu,
Que, para ser verdadeiramente Eu,
Ignora todos os nomes (inclusive o meu),
Porque eles simplesmente limitam o ser.

Ao me livrar de todos eles, evoluí,
E minha “anima” alcançou ser maio nível:
A profundeza de seu oceano,
Que é onde reside meu verdadeiro ser.

Crepúsculo Nórdico

Ao contemplar a aurora,
Começo a imaginar
Tudo terminar
Como outrora.

Odim a todos guia
Na batalha final,
E seu arsenal
Ele seguia.

O barulho das armas
Agora se escuta
Em toda a luta.
Grandes carmas.

Vejo os deuses morrerem.
E que triste fim
O deles enfim
Perecerem.

O céu avermelhado
É o grande sinal,
O ponto final.
Acabado!

Um novo mundo nasce,
Pois Baldur retornou
E tudo amainou
E refloresce.

Clamor aos deuses

Ó! Antiga “Midgard” amada,
Terra já muito deflorada.
A ti, não haverá futuro.
Seu futuro todo obscuro.
A ti, não posso mais olhar.
Não posso agora suportar
Esse estado em que se encontra
Essa destruição que sou contra.
E que todos em “Midgard” morram!
Para “Asgard” ó deuses, me socorram.
É chegado o tempo da fúria,
Para acabar com a injúria.
Odin comanda sua falange.
O tambor estrondoso tange,
Incitando na tropa a guerra.
Sua fúria, esse mundo encerra.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Bhagavad Gita

I
Por quê te aflige grande e nobre Arjuna?
És tu de “Kunti” nobre e grande filho,
O poderoso arqueiro todo brilho,
Mais brilhante que “Surya” e grande Luna.

Você não pode desistir agora,
Pegue tudo que é seu, não mais hesite.
Eu já matei seus primos. Acredite,
São só corpos, cadáveres por hora.

hesite em atirar as suas flechas,
Não se iluda co’aquilo que morreu,
Pois tudo o que tem neste mundo é meu.

Eu preencho grandes e pequenas brechas
Eu sou “Parabhamâ”, sou a Super Alma,
Eu sou a divina graça, dou-te calma.

II

Ó “Paramatmâ, vejo essa ilusão,
Vejo o errado caminho percorrido
Pelo seu filho pródigo iludido
Que em vez do sim prefere o falso não.

Já não são meus parentes, inexisto
Pra poder integrar a Super Alma,
Eu sou o guerreiro Arjuna já sem trauma.
Nesta batalha contra mim me alisto.

Novamente levanto o arco divino
E preparo meu tiro tão certeiro
Contra esse “Karna” verme e vil guerreiro.

Ó “Krishna”, dentro de mim toca o sino,
Sei ser este o momento agora certo
Para curar meu ferimento aberto...

Charles Baudelaire

Quero fazer satânicos meus versos,
Como o nosso pai gótico fazia.
Quero transformar báculo em poesia,
Ser Baudelaire em modos tão diversos.

Sim, eu vejo nascer Flores do Mal
Nesse mundo tão gótico e sombrio
De eterno luto, gélido e tão frio,
Por isso transformava ópio em portal.

Litania Satânica me inspira,
Não sou mais o Albatroz todo confuso,
Nenhum Frankstein sem porca ou parafuso.

Em total decadência o mundo gira.
Nele o grotesco vira bela arte,
Disseca o decadente parte a parte.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

O Contrato

Um jovem chamado XXNXXX estava desesperado e angustiado devido a sua condição de desempregado. Ele levava seus currículos todos os dias para diversas empresas e agências de emprego desta grande cidade de São Paulo.
Suas manhãs e tardes resumiam-se a subir e descer ruas entregando aqueles currículos, que depois, eventualmente iriam para o lixo, ou serviriam de rascunho, pois estamos em tempo de crise e está muito caro gastar papel hoje em dia. Portanto, nada melhor do que currículos para serem utilizados como rascunho.
Certo dia XXNXXX recebera um telefonema em sua casa.
-Alô!
-Bom dia! Gostaria de falar com XXNXXX referente a uma oportunidade de emprego.
-É ele mesmo quem fala.
-Então XXNXXX, a vaga é para uma empresa chamada MEPHISTO CORPORATION.
-O cargo seria o de Auxiliar Administrativo?
-Isso mesmo, e o salário fica a combinar.
-Correto!
-Mais uma coisa XXNXXX, a empresa tem extrema urgência em contratar, portanto, gostaria de saber se você se disponibiliza a fazer a entrevista hoje à tarde?
-Sem dúvidas e não tenho nenhum compromisso, hoje é um dia perfeito.
-Muito obrigado pela sua atenção XXNXXX e boa sorte para você.
Que momentos de felicidade para aquele jovem, finalmente uma entrevista. Seus sofrimentos agora poderiam acabar. Até que enfim uma grande oportunidade, pois aquela é segundo dizem uma empresa de renome e com muita tradição no mercado.
XXNXXX alegremente tomou banho, colocou sua melhor roupa, engraxou seus sapatos, arrumou cuidadosamente suas coisas, separou o que iria levar para a entrevista e saiu alegremente dando saltos de alegria pela rua. Ah, jovem feliz, e como estava radiante naquele dia e cantava, cantava e cantava...
Ao chegar a empresa conduziram o jovem a uma pequena sala no final de um extenso corredor. Esta sala era iluminada por uma luz fraca e suas cortinas estavam fechadas, um típico ambiente de entrevistas, aconchegante e acolhedora, sem falar no leve cheiro de mofo e enxofre. Aquela era mesmo a sala perfeita, quem não gostaria de fazer uma entrevista naquele local.
Alguns instantes depois um homem de meia idade, de altura mediana e trajando caríssimas vestimentas entra na sala.
-Boa tarde XXNXXX! Sente-se, por favor!
-Boa tarde!
-Então, a vaga em nossa empresa é para trabalhar como Auxiliar Administrativo, conforme conversaram com você por telefone.
-Isso mesmo.
-Vou lhe dizendo desde já que nesta empresa trabalha-se muito, muito mesmo e os salários aqui são baixos, porque estamos em tempos de crise.
-Sim Senhor.
-Terei grande satisfação em contratá-lo, desde que aceite trabalhar igual a um condenado na melhor empresa do país.
-Aceito sem questionar.
-Gostei de ver, você tem determinação e garra para trabalhar aqui, pois conhece plenamente o principal mandamento do mundo corporativo “questionar nunca e concordar sempre”.
Dito isso, o enigmático senhor levantou-se, foi até um armário próximo, tirou de lá uma pasta, abriu-a, retirou uns papéis e colocou-os sobre a mesa.
-XXNXXX este é o seu contrato de trabalho. Devo te dizer que ao assiná-lo você viverá exclusivamente para empresa e nunca mais terá tempo para o lazer, pois em primeiro lugar vem o trabalho e o resto é bobagem.
-Aceito plenamente.
-E como estamos em tempos de crise, devo também lhe informar que seu salário será muito baixo.
-Concordo, pois o importante mesmo é ter um emprego.
-Ótimo, é só assinar onde está marcado.
O enigmático senhor pegou o contrato, olhou-o atentamente, e com seu olhar mefistofélico e um aperto de mão encerrou a entrevista.
Contrato assinado, alma perdida para todo o sempre.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A voz de uma pedra

Sou pedra. Falo feito pedra bruta,
Dura, tão dura igual palavra dura,
Palavra pedra, dura, forte e pura.
Daqui não saio, tem que ter disputa,

E pedra bate sempre bruta, forte,
Impenetrável, grave, tesa e brava,
Massa pesada, voz que é bruta clava,
Som estridente de pavor e morte.

Tenho vontade pétrea impenetrável,
De duros sentimentos, maleável
Nunca, teimosa sempre, sou teimosa

E provarei para vocês agora.
Posso virar estátua que decora,
Mas permaneço toda pedregosa.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Carta ao Rio!!

Prezado Rio


Devo te confessar que naquele momento crucial de provação o medo apoderou-se de mim, com tal ímpeto que fui incapaz de cumprir o trato que fizera com meu pai. Não tinha compreendido o valor de minhas palavras. Explico-me melhor, eu não estava preparado para tomar o lugar dele naquele momento, e numa atitude covarde fugi.

Na verdade não fugi dele, estava fugindo de mim mesmo sem o saber naquele instante, inutilmente é claro, pois não há como escapar do destino. Logo percebi, e o remorso, tal adaga afiada fincada em meu coração, começara a arder profundamente no fundo de minha alma, que começou a sangrar muito. O sangue não estancava e todo meu ser inundava-se de arrependimento e angústia.

O que fazer diante de tal estado? Eu me perguntava diariamente com o propósito de estancar de vez essa ferida que já me debilitava por inteiro, me deixando fraco e lânguido. Aos poucos, o causador desse sofrimento ia me devorando, e ao me olhar no espelho via os traços da destruição.

Ó Rio, o meu corpo está fraco, muito fraco e já não tenho mais forças, só me resta energia para empurrar aquela mesma canoa estreita que meu pai fez e seguir seu curso. Sei que devo ir a seu encontro, e assim o farei, mas sinto que não estou preparado.

Muitos me disseram que não estavam preparados para a viagem derradeira, mas quando chegou o momento não se recusaram a embarcar em suas canoas e esperar seu destino. Para que fugir do inevitável? Não adianta mesmo.

E no final não restava mesmo outra coisa a fazer, e como eles, caminharei em sua direção sem mais questionar, já não me resta alternativa mesmo, e além do mais estou profundamente cansado e não vejo a hora disso tudo acabar. Portanto, pode me esperar que irei a seu encontro sem demora.

Espero que esta seja uma viagem agradável!


O Filho do Homem da canoa

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Quebra cabeça

Não noite
Mais tem
No belo
Tão mundo,
Tão lido
Que cai
A fina
Tão folha,
Não que
Não pena
A seja
Qu’escreva.

A Casa Viva



- Entre!
- Minha nossa, que lugar estranho aqui!
- Não entendi, estranho como?
- Essa sala, por exemplo, é coisa de louco ver essas cadeiras, mesas, abajures e estantes se moverem.
- Porque estranho? Eu dou liberdade a todos aqui. Todos são iguais para mim.
- Eu nunca vi coisas tão estranhas. Aonde já se viu objetos se moverem?
- Você os está vendo agora, estão na sua frente, e porque eles não podem ser livres? Acho que no seu mundo as coisas devem ser muito chatas.
- Não acho, lá quando eu quero assistir à televisão o sofá não fica andando como um doido por aí.
- Viu como são chatas as coisas nesse seu mundo. Televisão sim é uma coisa chata, um aparelhinho quadrado que fica mostrando imagens. Não preciso disso no meu mundo, aqui tudo é verdadeiro.
- Não acho, eu passo o dia inteiro em frente à televisão e me divirto muito.
- Tudo bem então, já que você está dizendo. Minha opinião continua a mesma. Mas vamos mudar de assunto por hora. Quero saber o seu nome primeiro, afinal de contas não nos apresentamos ainda.
- Sou Nielad e moro a duas quadras daqui.
- Prazer Nielad. Chamo-me Gilfred.
- Porque eu nunca vi sua casa aqui? E olha que moro nesses arredores a um tempinho.
- A resposta é bem simples amigo. Minha casa sempre esteve aqui nesse lugar, o problema é que você não queria vê-la.
- Como assim? Todas as casas podem ser vistas, isso não é verdade.
- Essa é diferente, ela se mostra para quem quer vê-la, não é como as casas comuns que aparecem para todo mundo, esta é muito refinada, e fale baixo, pois ela pode ficar ofendida com o comentário. Sabe como é, ela é um pouco orgulhosa.
- AH, não me diga que ela também é viva e fica andando por aí.
- Nossa, estamos começando a nos entender. É isso mesmo, ela tem vida, mas não anda, como lhe disse ela só se esconde mesmo, e só se mostra para quem quer vir aqui.
- Mas eu não queria vir para cá, eu simplesmente brincava com minha bola e ela caiu no seu quintal.
- Nossa! Você entrou numa enrascada das grandes.
- Porque?
- Lá é um reino imenso, e com muitas criaturas más. São de todos os tamanhos e de todos os jeitos.
- Não acredito. E estou indo para lá agora mesmo pegar minha bola.
- Tudo bem! É só seguir em frente e abrir a porta.
- Fácil mesmo...
...................................................................................................................................................
- Falei para você ter cuidado, lá é um lugar perigoso.
- Socorro! Há um dragão correndo atrás de mim.
- Agora é tarde meu amiguinho, te avisei e nada posso fazer, ele tem vontade própria, não interfiro na vontade de ninguém.
- Por favor, me ajude, ele está cuspindo fogo e pegou na minha blusa, vou morrer queimado.
- Ah, não vai não amigo, pois vaso ruim não quebra fácil e além do mais a porta de saída está perto de você, é só correr e sair, o dragão não sai de minha casa, pode ficar tranqüilo.
- Obrigado... Estou conseguindo...Consegui.


-Nossa! Que menino estranho. Imagina, falar que minha casa não é real. Ele que é louco!

Fim

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Soneto

A minha alma perdi n’alguma esquina,
Dessas inexpressivas, onde andei
Tão sujo e decadente. Não tem lei
Aqui no beco da fadada sina.

Ah! Só sinto cansaço, só cansaço
Nessa vida torpor de vagabundo,
Que de tanto cuspir matou seu mundo,
Terra podre, que morta, jaz no espaço.

Sou cemitério por inteiro, dentro
De mim só tem jazigos desolados.
Por cima deles, corpos enforcados.

Zumbis sarnentos nessa noite enfrento.
Minhas covas estão cheias de lama,
Tudo escuro e não vejo minha chama.

Aleister Crowley

Era um Mago, Enforcado, Louco ou Torre?
Místico dum Telêmico furor
Co’o Diabo no Carro o Mundo corre,
Como Pã num imenso afã e vigor.

“Aiwas” revela a nova lei, “Thelema”
No novo mundo será imensa e forte.
Em mar de caos o Mestre “Therion” rema.
A Roda gira e traz o Sol e a Morte.

Imperador dos Loucos e da Lua
“Perdurabo” era pura Estrela e luz
Na pesada magia que era a sua.

À Besta, simplesmente se reduz,
E diz-se Apocalipse da nov’era.
Sou Mago, Louco, Imperador?......Quem dera.

Wolfheart

Sinto uma alma de lobo me rasgando
A humana pele frágil que me abriga.
Selvagem, eu não tenho mais comando
Com essa besta que comigo briga.

Meus olhos escarlates brilham forte
Na negra escuridão do mundo algoz.
Junto comigo vem à amiga Morte,
Nosso uivo é nossa mais selvagem voz.

Corro num grande afã pela cidade
À procura de minha Mãe querida
Nesse mundo de imunda e vil fealdade.

Vejo-a brilhar no céu, senil e ab’tida
A reinar solitária e tão imponente.
Num selvagem furor vivo contente.